Horto da Igualdade completa 40 anos com área verde
quarta-feira, 3 de dezembro de 200802.10.2008
Ex-lavadeira, dona Laurinda se orgulha de ter plantado as primeiras árvores e se sente privilegiada por morar em um dos bairros mais arborizados da cidade
A data passou despercebida pelas autoridades mas não para dona Laurinda Soares Santana Amaral – está fazendo 40 anos hoje que o Horto da Igualdade recebeu o seu primeiro sepultamento, o de Genésio, um mendigo que vivia do albergue da cidade. Foi ela quem plantou as primeiras árvores que hoje tornam esse cemitério sem túmulos numa das melhores áreas arborizadas de Presidente Epitácio.
“Quando cheguei aqui não havia casas, asfalto, nem água, nem energia, só havia arranha-gato e boi - o centro da cidade ficava a quilômetros de distância”, rememora dona Laurinda. “Eu havia comprado um terreno, fiz um ranchinho de tábua e vim morar aqui trazendo uma minha filha de colo, a Luzia, com três meses de idade”, lembra.
Para sobreviver, ela explica que lavava as roupas das prostitutas da zona de meretrício que se localizada a pouca distância dali. “Não tenho o que esconder, graças a esse trabalho [de lavagem de roupas] é que eu consegui tudo o que tenho hoje”, reconhece.
Ela recorda que, naqueles idos da década de 60 e 70, era famosa a zona de prostituição que recebia gente graúda da cidade e figurões de toda a região atraídos por nomes como Gaúcha, Marina e Pedrina, proprietárias de casas concorridíssimas entre os freqüentadores do local. “Aqui não tinha nem rua, nem estrada, era um ‘trieiro’ por onde circulavam as charretes que traziam a freguesia”, diz dona Laurinda, apontando para a hoje rua Juca Pita, toda pavimentada e tomada por residências de bom padrão de coinstrução.
Mas como foi essa idéia de plantar árvores no Horto? “ - Ah! Como eu tirava água da única torneira que tinha na região para a lavagem das roupa – justamente a torneira do cemitério - eu o coveiro Altino começamos a plantar as primeiras mudas de sibipirunas que era uma forma de retribuição pela água fornecida”, explica.
Ao plantar as primeiras mudas de árvores no Horto da Igualdade, dona Laurinda, sem imaginar, estava contribuindo para ampliar o verde do Jardim Esperança, um dos bairros mais arborizados de Presidente Epitácio. Além das sibipirunas plantadas por ela, o Horto possui hoje diversas espécies como ipês, canafístulas, chapéus-de-praia, flamboyans, oitis e outras.
Quarenta anos depois, com a redução do espaço do Horto e o crescente número de sepultamentos, dona Laurinda teme que alguém possa algum dia querer cortar as árvores para abrir espaço para novos jazigos. Para evitar que isso aconteça, a ex-lavadeira que hoje toca um bar na frente do cemitério, tem uma proposta: “ampliar a área do Horto nos terrenos ao lado, quando isso ainda é possível, o que garantiria a preservação das árvores e a necessidade de espaço para os que virão”. É isso aí dona Laurinda, com essa história de luta e tal lucidez de visão, a senhora já garantiu o seu lugar no céu!

