PANTANAL


Peter Mix


PANTANAL

Corredor biogeográfico dos biomas brasileiros, o Pantanal promove a dispersão da fauna e da flora, além de proporcionar belas paisagens


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Maior planície alagável do mundo, o Pantanal é elo de ligação entre as duas maiores bacias da América do Sul: a do Prata e a Amazônia, o que lhe confere a função de corredor biogeográfico, ou seja, permite a dispersão e troca de espécies de fauna e flora entre essas bacias

 
O Pantanal está situado dentro dos aproximadamente 500 mil km2 da Bacia do Alto Paraguai – o equivalente às áreas dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná somadas. Essa planície, muitas vezes vista somente como um bioma brasileiro, cobre uma área de quase 210 mil km2, dos quais 70% estai no Brasil (nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul); 20% na Bolívia e os outros 10% no Paraguai. Grande parte do Pantanal e da Bacia Hidrografia do Prata, que o inclui, está inserida na lista da Unesco como Patrimônio Natural da Humanidade e também figura na Constituição Brasileira como Patrimônio Nacional.
Essa planície tem qualidades ambientais específicas por ser uma “ecorregião” onde encontram-se o Cerrado (leste, norte e sul); o Chaco (sudoeste); a Amazônia (norte); a Mata Atlântica (sul) e o Bosque Seco Chiquitano (nordeste). A convergência e presença de distintos biomas, somadas ao variável regime de cheia e seca, conferem particular diversidade e variabilidade de espécies. A taxa de endemismo é relativamente baixa, porém as características múltiplas possibilitam a interação entre material genérico de animais e plantas de maneira muito particular. Por ser compreendido como o elo de ligação entre as duas maiores bacias da América do Sul (do Prata e Amazônia), o Pantanal funciona como corredor biogeográfico, promovendo a dispersão da fauna e da flora. A denominação “pantanais” é utilizada para indicar onze sub-regiões distintas, determinadas pelo regime de inundação, drenagem, vegetação e relevo. Seria o Pantanal o “cadinho construído” para mesclar grande parte dos biomas da América do Sul?
Uma das características marcantes do Pantanal é seu regime de cheias e secas, determinado pela condição de extensa planície e sua relação com a parte alta da bacia (planalto). Na planície, a declividade é, aproximadamente, de 1 a 2 centímetros por quilômetro no sentido norte-sul e 6 a 12 no sentido leste-oeste, o que faz com que a região funcione como uma grande “esponja” durante o período das chuvas, recebendo as águas da parte alta, que são retidas, espelham-se e escoam lentamente. Existe uma complexa combinação das contribuições de diferentes regiões, cujas lagoas e baías funcionam como reguladores de vazão, acumulam água e amortecem a elevação do nível durante o crescimento e cedem água durante a recessão. O lento “escoar” promove um fenômeno interessante que é cheia sem chuva ou cheia sem seca: as águas que entram há meses na planície nas partes mais altas, por fim chegam em grande volume na parte mais ao sul, provocando a crescida das águas sem que tenha ocorrido chuvas. Um exemplo é a cheia ocorrida em agosto de 2003, em geral o mês mais seco da região. O ciclo de inundação do Pantanal é regido pelas chuvas em toda a Bacia do Alto Paraguai, no período de setembro a janeiro no norte do Pantanal e novembro a março na porção sul.
 
Durante a cheia, rios, lagos e riachos ficam interligados por canais e lacunas ou “desaparecem” no “mar” de águas, permitindo o deslocamento de espécies. Esse processo é um dos principais responsáveis pela constante renovação da vida e pelo fornecimento de nutrientes. Na época da seca, formam-se então lagoas e corixos isolados, os quais retêm grande quantidade de peixes e plantas aquáticas. Lentamente esses corpos d’água vão secando, o que atrai aves e outros animais em busca de alimentos promovendo espetacular concentração de fauna. Coincide, em algumas regiões, com a florada de várias espécies, provocando cenários de raríssima beleza. Vale lembrar que o Pantanal é uma das áreas mais importantes para as aves aquáticas e espécies migratórias, como abrigo, fonte de alimentação e reprodução.
 
 
História e cultura
 
De acordo com informações do Kit Pantanal, no século XVI, quando chegaram os primeiros colonizadores europeus, o Pantanal já era ocupado por importantes populações indígenas de várias etnias. Somente no Mato Grosso do Sul, 1,5 milhões de indígenas habitavam a região; pertencias às etnias Guarani, Guató, Ofayé, Kaiapó Meridional, Payaguá, dentre outras. Atualmente, os Payaguá estão extintos e os Guató tem uma população que não ultrapassa 400 pessoas. A maioria vive em uma área indígena do Pantanal, porém alguns optaram por viver nas cidades da região ou trabalhar em fazendas.
Por volta do século XIX, além dos colonizadores europeus, desbravadores da região Sudeste (impulsionados pela descoberta do ouro) chegaram à região de Cuiabá (Mato Grosso), iniciando novo processo de ocupação.
Gradualmente as comunidades locais foram se transformando em povoados e, finalmente, em cidades, conformadas por ribeirinhos, indígenas, vaqueiros e fazendeiros, que passaram a interagir mais intensamente e a agregar valores urbanos aos seus antigos modos de vida. No entanto, ao longo dos rios e corpos de água do Pantanal, é possível avistar populações ribeirinhas e indígenas que ainda preservam os costumes e tradições de seus antepassados.A rica miscigenação provocada pelo processo de  ocupação mais recente resultou em uma cultura que abriga características das diversas etnias indígenas, populações ribeirinhas, populações originárias de outros estados brasileiros e países vizinhos (principalmente Bolívia e Paraguai). A materialização dessa “cultura pantaneira” pode ser exemplicada pela “Festa de São Sebastião”, amplamente festejada, que reúne crenças católicas e candomblés, churrasco e baile, no ritmo da polca-paraguaia, rasqueado e chamamé.
Hoje, a população no Pantanal brasileiro é de aproximadamente 1.100.000 pessoas. Na Bolívia se estima 16.800 habitantes e, no Paraguai, 8.400 habitantes. As principais cidades brasileiras inseridas na planície brasileira, dez no total, possuem populações que variam desde 12 mil habitantes (em Porto Murtinho, MS), até 500 mil habitantes, em Cuiabá (MT).
 
 
Atividades econômicas
 
 
As principais atividades econômicas desenvolvidas na planície pantaneira são a pecuária, a pesca, o turismo, a extração de minérios e, em menor escala, a agricultura. No planalto estão, entre as principais atividades, a pecuária e a agricultura.
Pecuária – Destaca-se como a atividade que acompanhou o processo de ocupação mais recente do Pantanal e expandiu-se com o fim do ciclo do ouro no século XIX. É desenvolvida de maneira extensiva nas pastagens naturais, em grandes propriedades, predominando a cria e a recria com baixo índice de desfrute. Com cerca de 3,2 milhões de cabeças, a atividade tradicionalmente está condicionada ao regime anual de cheia e seca, pois quando ocorre a crescida das águas, o gado é retirado para as partes mais altas. Na baixa, o caminho inverso é feito. Nos últimos anos, há indicações de mudanças radicais com a introdução de práticas como a substituição de pastagens nativas por espécies exóticas, a retirada da vegetação ciliar e o uso de biocidas. O Pantanal do Rio Negro, um dos mais conhecidos do mundo, tem sofrido um processo acelerado de desmatamento, inclusive para abastecer as carvoarias produtoras de carvão vegetal para a siderurgia.
A pecuária no planalto tem repercussões na planície, particularmente no que se refere ao transporte de sedimentos, tendo como efeito mais evidente o assoreamento de rios e casos de mudanças em grandes regiões como a do Rio Taquari. Pecuaristas desenvolvem há algum tempo experiências de produção chamado “boi orgânico”, mantendo a criação em condições naturais na planície, com o objetivo de criar alternativas sustentáveis.
Peca e turismo – O peixe é o bem natural que mais gera trabalho e renda no Pantanal. Essa condição pode mudar devido ao desmatamento no planalto e na planície para o plantio de pastagens e grãos, somado às queimadas, o que afeta negativamente os sistemas aquáticos e, consequentemente, toda a fauna aquática, particularmente os estoques pesqueiros. A gravidade do quadro é mais evidente quando se considera que os peixes constituem um dos maiores compartimentos de reserva viva em nutrientes e energia, garantindo a sobrevivência de inúmeras outras espécies e o equilíbrio do sistema. Entre outras funções, atuam como dispersores de sementes e constituem a alimentação básica para muitos componentes da fauna. Nos períodos de seca, a mortalidade aumenta, pois as populações são obrigadas a concentrarem-se nas lagoas e canais permanentes, constituindo presas fáceis para aves e outros animais, além de ficarem ainda mais suscetíveis à pressão da pesca.
São desenvolvidas três modalidades principais de pesca: a de subsistência, a esportiva e a profissional. A primeira é registrada há mais de duzentos anos e é parte da cultura regional, constituindo importante fonte de proteína para as populações ribeirinhas. A pesca profissional viabiliza a subsistência de pelo menos 3.500 pescadores em toda a região. As espécies de peixes mais capturadas pelos pescadores profissionais são consideradas espécies nobres, como pintado, cachara, jaú, dourado e o pacu. Curimbatá e piavuçu também são capturados e possuem um menor valor comercial. A esportiva se tornou o principal atrativo do turismo regional, especialmente no Mato Grosso do Sul, trazendo mais de 100 mil pescadores por ano. Conta com uma grande infra-estrutura de barcos e gera milhares de postos de trabalho nos dois estados.
Políticas equivocadas e a falta de planejamento afinados com as especialidades e funcionamento do sistema colocam em risco a atividade. A partir do final da década de 1970, em decorrência das facilidades de acesso e implantação gradativa de infra-estrutura, o turismo pesqueiro teve um crescimento considerável no Pantanal Mato-grossense. A demanda dos pescadores por “iscas vivas” (pequenos peixes e crustáceos), as quais servem de alimento para as espécies mais nobres, incrementou o comércio, mobilizando centenas de famílias de ribeirinhos, de peões das fazendas e trabalhadores das periferias das cidades para atuar na atividade de coleta. Essas pessoas, conhecidas como “isqueiros” ou coletores de iscas, foram gradativamente se estabelecendo às margens dos rios e lagoas pantaneiras, criando novas comunidades.
Apesar da importância da pesca, devem ser anotados problemas ambientais e sociais. Entre os sociais está a prostituição e entre os ambientais a sobrepesca de espécies como o pacu.
Além do turismo de pesca, também se desenvolveram o turismo ecológico e o rural, que, na última década, contribuíram para a melhoria da infra-estrutura, com mais hotéis e barcos, e para o aperfeiçoamento dos serviços. O turismo é uma atividade que pode ampliar-se com sustentabilidade, pois promove retorno econômico requerendo menos investimento que outras. Todavia, ainda faltam coisas básicas como um plano diretor global -  com Paraguai e Bolívia – e planos diretores específicos por região e ramos. Infelizmente, o turismo não tem sido considerado em todo seu potencial, permanece até aqui o discurso industrialista para algumas regiões.
Mineração e siderurgia – A mineração e, mais recentemente , a siderurgia, são atividades em plena expansão na bacia do Alto Rio Paraguai, impulsionadas pelo crescimento da economia brasileira e a demanda mundial. São explorados o ferro, o manganês e o calcário na parte sul e ouro e diamante na parte norte. A mineração encontra-se em dois complexos na periferia do Pantanal: Maciços do Urucum e de Cuiabá-Cáceres. No Urucum, município de Corumbá, situa-se uma das maiores jazidas de manganês da América Latina, com mais de 100 bilhões de toneladas; as de ferro estão estimadas em 2 bilhões de toneladas. Todo manganês é extraído de minas subterrâneas e o ferro, de mina a céu aberto. As atividades de mineração podem afetar os lençóis freáticos que abastecem rios, córregos e poços, contaminando a água. Impactos negativos da mineração já foram evidenciados no município de Corumbá. Grandes empresas como a Vale do Rio Doce, a Rio Tinto e a EBX são responsáveis pelo maior volume de extração mineral e também estão envolvidas na constituição de um pólo siderúrgico para a produção do ferro-gusa e aço. Outras empresas como Petrobrás e Duke Energy participam de empreendimentos correlatos, como a de uma usina termoelétrica movida a gás. A Brasken, do grupo Odebretch, tem interesse em construir um pólo gás-químico.
A maior preocupação dos ambientalistas para os próximos anos é com a produção siderúrgica e sua dependência do carvão vegetal, fator que já tem levado a uma retirada de vegetação de maneira acelerada.
Agricultura – A agricultura praticada na planície pantaneira, embora com pouca expressão econômica – já que o alagamento sazonal e os solos pobres das áreas mais altas são limitantes – tem provocado danos em regiões ecologicamente sensíveis como a do Pantanal do Rio Miranda, onde a cultura do arroz é intensiva no uso da água e de biocidas agrícolas. Nos anos mais secos é nítida a retirada de água além da capacidade de suporte do rio. Na região do planalto, a agricultura de grãos e algodão é praticada em larga escala, também com a utilização de agrotóxicos carregados para os cursos de água e daí atingindo a planície, onde os impactos ambientais da contaminação são agravados. A baixa velocidade de escoamento dos cursos d’água prolonga o tempo de permanência dos poluentes e favorece o efeito cumulativo.
 
 
Os grandes projetos e degradação
 
 
A moderna ocupação do Cerrado inicia-se na década de 1970, impulsionada pelas políticas governamentais que abarcavam financiamentos para a agricultura e pecuária a juros subsidiados, construção de estradas e hidroelétricas, tendo como suporte pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária. As pastagens de brachiaria e as plantações de soja estão na linha de frente desse processo. Inicia-se a era dos grandes desmatamentos com profundas transformações ma bacia do Rio Paraguai e no Pantanal. Alguns projetos ainda são ameaça para a planície e toda a bacia, sendo o mais emblemático deles o da Hidrovia Paraná-Paraguai.
O gasoduto Brasil-Bolívia, projetado e construído com o objetivo de transportar e fornecer gás para Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, é outro mega-projeto com resultados no Pantanal. Esse empreendimento tornou-se um dos suportes para a embrionária industrialização da região através de planejados pólos gás-químico e siderúrgico. No caso deste último, seu efeito em termos de degradação já é percebido como o aumento das taxas de desmatamento para a produção de carvão vegetal para abastecimento dos fornos. Prevê-se, caso medidas drásticas não sejam tomadas, que milhares de hectares serão devastados.
As queimadas anuais para limpeza de pastagens naturais degradam o ambiente natural e têm conseqüências sérias para a saúde humana. Os postos de saúde da região ficam lotados de pessoas com problemas pulmonares nos períodos mais críticos. Na economia, além da perda de qualidade dos solos e águas, acarreta problemas para atividades como o turismo – vôos para Corumbá ficam interrompidos devido à fumaça nos pedidos mais críticos.
A exploração com diferentes finalidades levou algumas espécies à ameaça de extinção na região, como nos casos da poaia, para uso medicinal, no Pantanal Norte, e do quebracho, (a mais densa das madeiras), para a extração do tanino utilizado na curtição do couro. Também é muito procurado para móveis e outros usos da madeira como mourões de cerca. Esse processo foi intensivo até a década de 1950 na região sudoeste do Pantanal. Um povo que habita a região é chamado de Chamacoco, outro dos nomes do quebracho. Ainda hoje a retirada ilegal de madeira é facilitada pela extensão territorial, falta de fiscalização e dificuldade de acesso às regiões.
O tráfico, a caça e a venda de peixes, couro ou artefatos provenientes de animais silvestres são práticas que, embora ilegais, ainda ocorrem. Várias espécies animais já estiveram sob forte ameaça de extinção. As situações mais conhecidas nacional e internacionalmente são as do jacaré-do-pantanal e da onça. Da década de 1980 até início de 1990, o jacaré esteve sob pressão de caça, incentivada pela demanda internacional de sua pele, quando milhões delas saiam ilegalmente da região. A onça talvez seja o mamífero mais ameaçado neste momento, devido à caça sistemática e ilegal exercida por fazendeiros, que alegam prejuízos com os ataques ao rebanho bovino, por um lado, e por outro com redução de seus habitats devido ao desmatamento. O Centro-Oeste, em particular o Pantanal, é considerado uma das principais regiões atingidas pelo tráfico.
A falta de visão e políticas integradas para o Pantanal, que considerem efetivamente as tendências regionais e as necessidades essenciais das populações locais resultam em ações isoladas e com pouca repercussão em sua totalidade. Além disso, as principais demandas sociais vão sendo postas em segundo plano, devido à falta de implementação de políticas participativas e a má aplicação de recursos. São escassos os esforços para a construção de sinergias entre iniciativas, o que dificulta a implementação de estratégias sustentáveis para a melhoria da qualidade de vida no Pantanal.
Os problemas ambientais, sociais e econômicos na região pantaneira têm sido cada vez mais intensos, exigindo medidas articuladas e eficazes condizentes com a realidade local. 
 

Fonte: Almanaque Brasil Socioambiental – ISA/2008





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