CAATINGA


Peter Mix


CAATINGA

Espécie da Caatinga, adaptada à vegetação caracterizada por escassez de água


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A Caatinga abriga um Brasil das mais profundas contradições e desigualdades sociais, com os mais baixos índices de desenvolvimento humano, com elevados percentuais de população empobrecida, decorrentes de um processo de ocupação espacial que explorou a natureza de forma predatória, concentrando terra e poder no domínio de poucos.

Um Brasil onde o acesso à água em muitos lugares ainda não se consolidou como direito básico, mas que possui uma dinâmica articulação de organizações da sociedade civil, que tomou para sai responsabilidade de resolver este problema e mudar uma paisagem ainda dominada por oligarquias políticas.

Um Brasil onde mais de 30% da energia é gerada por lenha retirada da natureza de forma predatória, mas que abriga um complexo hidrelétrico que fornece energia para as grandes metrópoles nordestinas e para todo o seu parque industrial. Um Brasil que há mais de um século expulsa sua população para outras regiões do País como mão-de-obra barata. Um Brasil que em boa parte da população passa fome.

A paisagem da Caatinga reflete um clima de abundância de raios solares, com temperaturas elevadas na maior parte do ano; de chuvas escassas e irregulares, com longos períodos de secas e precipitação anual média variando, aproximadamente, entre 400 e 650 mm; de rios intermitentes e sazonais, com volume de água limitado, insuficiente para a irrigação, com exceção do Parnaíba e do São Francisco; e de uma paisagem onde boa parte dos solos são rasos e pedregosos e o subsolo abriga grandes rios subterrâneos.
Tem ainda uma rica biodiversidade vegetal e animal, que não é de toda conhecida, onde abundam cactos e uma infinidade de espécies endêmicas. Mas essa é apenas uma parte da história do único bioma brasileiro distribuído exclusivamente em território nacional e que, assim como o Cerrado, não foi considerado Patrimônio Natural do País na Constituição de 1988.
 
 
As caatingas
 
 
O nome Caatinga tem origem tupi-guarani e significa floresta branca, um retrato típico da vegetação onde, durante a seca, as plantas perdem suas folhas para reduzir a perda de água e os troncos adquirem um tom branco-acinzentado.
Está distribuída em 844 mil km2, que correspondem a 9,92% do território nacional, 60% do Nordeste ou 1,2 mil municípios. Engloba integralmente o Ceará, a maior parte do Rio Grande do Norte (95%), da Paraíba (92%) e de Pernambuco (83%), mais da metade do Piauí (63%) e da Bahia (54%), quase metade de Alagoas (48%) e Sergipe (49%) e pequenas porções de Minas Gerais (2%) e do Maranhão (1%), de acordo com o Mapa de Biomas do Brasil, lançado em 2004 pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em parceria com o Ministério do Meio Ambiente.
Ao contrário de uma paisagem homogênea como geralmente é veiculada noutras regiões, existem 12 tipos diferentes de “caatingas” e ambientes associados. Há desde florestas altas e secas com árvores de até 20 metros de altura, a chamada caatinga arbórea, até afloramento de rochas com arbustos baixos e esparsos, com cactos e bromélias saindo das fendas do solo, como é descrito no Ecologia e Conservação da Caatinga, um dos mais completos livros sobre o bioma menos estudado do País. Há ainda o “mediterrâneo” sertanejo, definido por Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro, dos brejos florestais, várzeas e serras; áreas mais úmidas e de clima mais ameno.
São 932 espécies de plantas, sendo 318 endêmicas. A Adaptação ao clima semi-árido resultou em plantas tortuosas, de folhas pequenas e finas ou até reduzidas a espinhos, com cascas grossas e sistema de raízes e órgãos específicos para o armazenamento de água, como cactos, sendo predominantes o mandacaru (Cereus jamacaru) e o xique-xique (Pilosocereus gounellei), as barrigudas (Cavanillesia arbórea), o pau-mocó (Luetzelburgia auriculata) e o umbuzeiro (Spondias tuberosa), descrito como a “árvore sagrada do sertão” por Euclides da Cunha, em Os Sertões, porque além de saciar a sede do sertanejo tem múltiplos usos. Das folhas, saem saladas; do fruto, polpa para sucos, licor e doces; e da raiz, farinha comestível, ou vermífugo.
 
 
Plantas medicinais
 
 
O uso medicinal das plantas, aliás, é muito difundido pela população que habita a região da Caatinga, sendo folhas, raízes e cascas, entre as quais as da catingueira (antidiarréica), do jerico (diurético) e do angico (adstringente), itens obrigatórios das tradicionais feiras e mercados locais. Criado em 1985, o projeto Farmácias Vivas, da Universidade Federal do Ceará, já selecionou em comprovou cientificamente a eficácia de mais de 60 espécies de plantas medicinais do Nordeste, como as características aintiinflamatória e cicatrizante da aroeira-do-sertão (Myracrodruom urundeuva), uma das plantas de uso ginecológico mais comum e antigo da medicina popular do Nordeste no tratamento pós-parto. Unindo sabedoria popular e conhecimento científico, a proposta, pioneira, que fornece acesso a atendimento fitoterápico a comunidades carentes do Estado, motivou o governo do Ceará a criar o Programa Estadual de Fitoterapia, que tem sido replicado em diferentes partes do País.
Outra árvore nativa da Caatinga de grande importância por suas múltiplas unidades é a sabiá (Momosa caesalpínifolia), que fornece madeira de excelente qualidade para estacas, para o plantio em cerca-viva, para alimentar as abelhas com suas flores e como forragem com suas folhas. Planta adubadeira e produtora de corante.
O sabiazeiro, a catingueira e o angico, assim como o jucá, o mororó, a catanduva e a jurema-preta, entre outras espécies, são também utilizadas em residências industriais para a produção de lenha e carvão vegetal para a geração de energia e como matéria-prima para a construção de habitações e alimentação de animais. Recursos naturais retirados, na grande maioria das vezes, de forma predatória. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente, o consumo de madeira nas residências é de 39 milhões de metros esteres/ano (metro cúbico de madeira retorcida, típica do semi-árido) e nas indústrias, de 29 milhões de metros esteres/ano. De acordo com o prefácio do ex-presidente do Ibama, Marcus Barros, para o Ecologia e Conservação da Caatinga, “hoje é difícil encontrar remanescentes maiores do que 10 mil hectares no bioma”.
Realizada em 2006, a atualização do estudo de Avaliação e Identificação de Áreas e Ações Prioritárias para Conservação e Utilização Sustentável e Repartição de Benefícios da Biodiversidade Brasileira, compromisso do governo brasileiro como signatário da Convenção sobre Diversidade Biológica (CBD), identificou 292 áreas prioritárias para a conservação da Caatinga. Essas áreas equivalem a 51% da extensão total do Bioma, totalizando 442.564 km2.  
A criação de unidades de conservação (UCs) foi a ação mais recomendada para as áreas prioritárias (24,6%), seguida de recuperação de áreas degradadas (9,4%), a criação de mosaico/corredor (5,11%) e fomento ao uso sustentável (2,18%). Atualmente, as unidades de conservação (UCs) correspondem a apenas 2% da área total do bioma. Os cientistas defendem a ampliação para 10% da área total protegida por UCs na Caatinga no prazo de dez anos. Dentre as áreas de extrema importância biológica estão o Raso da Catarina(BA), a chapada do Araripe (CE, PE e PI) e o Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), mais emblemático da região por ser o único localizado inteiramente na Caatinga, para o qual foi sugerida a conexão com o Parque Nacional da Serra das Confusões (PI).
O Ministério do Meio Ambiente criou, em maio de 2006, o Corredor Ecológico da Caatinga, uma área de 5,9 milhões de hectares que deve interligar oito UCs, compreendendo 40 municípios de Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e Piauí.
Em abril de 2007, foi lançada a Aliaça pela Caatinga, projeto que tem como meta duplicar as 35 Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPNs) do Bioma, distribuídas em 110 mil hectares, em três anos. Participam da iniciativa a Associação Caatinga e a The Nature Conservancy (TNC), preocupadas com o avanço do agronegócio na região, especialmente com o novo mercado de mamona e pinhão-manso para a produção de biocombustíveis.
 
 
Diversidade pouco (re)conhecida
 
 
As aves são o grupo mais conhecido do bioma brasileiro menos estudado pelos pesquisadores. Foram registradas na Caatinga 510 espécies. O acauã (Herpetotheres cachinnans), gavião predador de serpentes, está associado ao universo de superstições do sertanejo. Seu canto é considerado prenúncio de chuva e de mau agouro.
A ariranha azul  (Cyanopsitta spixii), hoje extinta na natureza vítima do tráfico de animais silvestres, é uma das muitas espécies que durante a seca se refugiavam em brejos de altitude, beira de rios, entre outros locais mais úmidos. Outra pequena parcela migra durante a seca para regiões menos inóspitas, como o bigodinho (Sporophila lineola), que cruza a Amazônia tendo como destino final a Venezuela.
A arribaçã (Zenaida auriculata noronha), também conhecida como avoante, é uma pomba da mesma família da asa-branca, que migra, acompanhando a frutificação da flora no sertão nordestino. A arribação chega no fim do inverno, em bandos, nas caatingas, passando nos lugares onde encontra o capim-milhão, que é a alimentação que prefere. Sai em grandes revoadas, com a chegada das primeiras chuvas. Está ameaçada de extinção, pois são presas fáceis para os caçadores, por fazerem ninhos no chão.
O galo-da-campina (Paroaria dominicana), também conhecido como cardeal-do-nordeste, é um dos mais bonitos pássaros brasileiros e vive na caatinga baixa e rala do Nordeste. Alimenta-se principalmente de sementes e, por ter um belíssimo canto, é muito perseguido pelos criadores e pelos comerciantes de animais nativos.
Apesar do predomínio de rios temporários e do crescente desmatamento de matas ciliares e da contaminação dos cursos d’água por esgotos, agrotóxicos e efluentes industriais, foi identificada na Caatinga, surpreendentemente, uma grande diversidade de peixes. São 240 espécies, 57% endêmicas. Algumas vivem em rios sazonais e como estratégia de sobrevivência depositam ovos resistentes, que só eclodem na época das chuvas.
As serpentes, os lagartos e anfisbenídeos, as chamadas cobra-cegas, estão entre os grupos mais numerosos das espécies de répteis e anfíbios, 154 no total, e também entre as consideradas mais características da fauna do semi-árido. Descobertas recentes indicam que 37% dos lagartos e anfisbenídeos da Caatinga sã endêmicos das dunas do Médio Rio São Francisco, uma área que se estende por apenas 7 mil km2, ou 0,8% da área do sertão nordestino, para a qual é defendida a criação de um parque nacional. O passado geológico da região responde pela fascinante diersidade. O Rio São Francisco já formou uma imensa lagoa no interior do Brasil, com espécies de lagartos e anfíbios ao seu redor. Com a alteração de seu curso devido a alterações climáticas no fim do Período Pleistoceno – entre 1,8 milhão e 11 mil anos atrás -, esses animais ficaram separados em grupos, cada um em uma margem do rio, o que estimulou a formação de novas espécies.
Até o fim dos anos 1980, o número de mamíferos existentes na região era subestimado em 80, e as espécies endêmicas e três, considerados, em sua maior parte, um subconjunto da fauna do Cerrado. Revisões desses levantamentos demonstram a distinção da fauna da Caatinga e apontam para a existência de 144 mamíferos na região, dos quais 64 são espécies de morcegos e 34 de roedores. Cerca de dez das espécies de mamíferos são endêmicas e dez estão ameaçadas de extinção, entre as quais cinco felinos e o tatu-bola (Tolypeutes trinctus), o menor tatu brasileiro, de 22 a 27 centímetros, que enrola o corpo e fica parecido com uma bola quando se sente ameaçado. Assim como o mocó (Kerodon rupestris), um  rato que chega a medir 40 centímetros, que figura entre as espécies da caça de subsistência praticada pelo sertanejo para acabar com a fome.
De acordo com a lista nacional das espécies de fauna brasileira ameaçada de extinção, publicada em maio de 2003, pelo Ibama, vivem no bioma 28 espécies ameaçadas de extinção.
 
 
 
Índices sociais preocupantes
 
 
Um dos biomas brasileiros mais alterados por atividades humanas, a Caatinga abriga cerca de 28 milhões de pessoas; a população mais pobre do Nordeste e uma das piores rendas de todo o País, com renda média sendo inferior a um salário mínimo. Definido por Euclides da Cunha como antes de tudo um forte, sertanejo está presente em 68% da região, sendo que as áreas extremamente antropizadas correspondem a 35,3% e as muito antropizadas a 13,7%, porcentagens possivelmente subestimadas, pois são baseadas no Mapa de Vegetação do Brasil, do IBGE, produzido com dados das décadas de 1970 e 1980. Apesar disso, apenas 15 municípios apresentam densidade demográfica acima de 100 habitantes por km2.
Cerca de 2 milhões de famílias de agricultores rurais vivem no semi-árido, 50% dos pequenos agricultores do País, ocupando apenas cerca de 4,2% das terras agrícolas do Brasil.
A grande maioria dos municípios apresenta baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e a taxa de mortalidade é alta, geralmente acima de 100 mil por mil. A taxa de analfabetismo para maiores de 15 anos também é extremamente elevada, entre 40% e 60%.
 
 
 
Marcas socioambientais: o gado e o latifúndio
 
 
A ocupação da região pelos portugueses começou com a pecuária, desenvolvida para servir ao ciclo da cana-de-açúcar. “No agreste, depois nas caatingas e, por fim, nos cerrados, desenvolveu-se uma economia pastoril associada originalmente à produção açucareira como fornecedora de carne, de couros e de bois de serviço”, como expôs Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro, formando a “civilização do gado”, como definiu  Manuel Correia de Andrade na obra A Terra e o Homem do Nordeste.
Foi assim que se iniciou o processo de expulsão, extermínio e escravização dos povos indígenas do sertão, os Tapuias, considerados “hostis” pelos colonizadores devido às tentativas de resistência, marcadas por diversos conflitos entre 1650 e 1720, relembrados como a Guerra dos Bárbaros. Os nativos sobreviventes, ou os que pediram socorro aos colonizadores nos anos de secas severas, foram submetidos à homogeneização nos aldeamentos missionários, por meio da catequese e da “disciplina” do trabalho.
Com a descoberta do ouro na região das Gerais, a pecuária foi intensificada para suprir as migrações e a mão-de-obra escrava, por meio do Velho Chico, e a atividade complementar dos donos dos engenhos de cana-de-açúcar se transformou em uma atividade especializada de criadores e então se constituíram muitos dos maiores latifúndios do Brasil.
Para alimentar os vaqueiros, responsáveis por desbravar o sertão, a criação de cabras (caprinocultura), hoje uma forte atividade econômica, foi introduzida nas áreas menos propícias ao gado. Além de gerar carne, leite e queijo, a criação de bodes se desdobrava em parte da indumentária, como os chapéus de couro, e na formação de algumas das características sertanejas, segundo estudiosos, entre as quais a indiferença em relação à morte e a sangue, devido à familiaridade em abater esses animais desde a infância.
Ainda no Brasil Colonial, o poder dos grandes proprietários de terra foi ampliado com a criação da Guarda Nacional do Império, para as quais eram nomeados coronéis e seus peões, soldados. Além do controle econômico, passaram a influenciar a política local. Com a chegada da República, que institui o voto aberto e não secreto, os coronéis determinavam os votos da população por imposição ou favorecimentos, como dinheiro, roupas ou empregos, o chamado voto de cabresto, minunciosamente retratado no documentário Teodorico, o Imperador do Sertão, de Eduardo Coutinho.
Desde então, estrutura fundiária pouco mudou. Pelo contrário, o ingresso de outras atividades esteve sempre condicionado a ela. Do cultivo do  mocó, algodão arbóreo, que conquistou espaço destacado na economia regional no século XIX, passando pela exploração dos palmais de carnaúba, para a produção de cera e artefatos de palha, às pequenas lavouras comerciais de milho, feijão e mandioca, os sertanejos não se tornaram senhores das terras cultivadas. Correndo o risco de serem expulsos sem receber nenhuma indenização pelas benfeitorias, ocupavam parte de latifúndios como meeiros, ou seja, tinham de dividir a produção com os proprietários ou se submeter a outras relações análogas ao trabalho escravo, ainda existente no País, como o endividamento.
As secas se tornaram uma questão pública no fim do século XIX, após estiagens históricas marcadas por invasões e saques de diversas propriedades rurais por sertanejos com fome. Os recursos governamentais foram destinados principalmente à construção de açudes, barragens, estradas, pontes e ferrovias, obras executadas pela Inspetoria de Obras Contra as Secas, primeiro órgão governamental criado para tratar do assunto, em 1909, predecessor do Departamento Nacional de Obras Contra a Seca (DNOCS), instituído em 1945, e atualmente vinculado ao Ministério da Integração Nacional.
De acordo com os dados da ONG Caatinga, menos de 20% das verbas dos DNOCS atendem à população rural mais necessitada; os principais beneficiados têm sido os latifundiários, políticos locais e empreiteiros. Localizados nas grandes fazendas, os empreendimentos que deveriam servir para matar a sede de todos fomentaram a “indústria da seca”, que manteve o sertanejo sob o cabresto das elites.
 
 
Ligas camponesas, Sudene e migração
 
 
Em meados da década de 1940, surgiu um novo movimento para modificar essa estrutura arcaica. São as chamadas Ligas Camponesas. Organizadas em diversos estados do Nordeste com o apoio do Partido Comunista Brasileiro (PCB), as predecessoras do MST começaram a gerar uma consciência nacional em favor da reforma agrária entre os trabalhadores rurais. Com o golpe militar de 1964, foram interrompidas, assim como o documentário de Eduardo Coutinho sobre o assunto, Cabra Marcado para Morrer, finalizado em 1984 com Elisabeth Teixeira, viúva do líder camponês João Pedro, assassinado em 1962, que tinha inspirado a obra. Hoje, existem cerca de 86 mil famílias assentadas na região, concentradas na Bahia e no Ceará.
A década de 1940 também foi marcada pelo êxodo rural maciço do sertão nordestino como mão-de-obra barata na construção dos hoje grandes centros urbanos do País, o que se repetiu na ditadura militar com a expansão das fronteiras agrícolas no Centro-Oeste e na Amazônia, que já tinha recebido milhares de sertanejos em períodos anteriores para a exploração da borracha.
É nesse contexto que o “atraso” do Nordeste seco em relação ao Sudeste e Sul do País volta a receber a atenção do governo. Em 1956, o presidente Juscelino Kubitschek constituiu o Grupo de Trabalho para o Desenvolvimento do Nordeste (GTDN), coordenado pelo economista Celso Furtado, que elabora uma política de desenvolvimento econômico para o Nordeste, na qual recomenda a industrialização da região e a incorporação dos agricultores familiares à economia de mercado.
O trabalho resultou na criação da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene) em 1959, que pretendia encarar questões como concentração fundiária e analfabetismo, priorizou a produção de alimentos por meio da irrigação no Rio São Francisco. Desde a ditadura militar, a Sudene enfrentou um processo de esvaziamento político e orçamentário. Em 2001, foi extinta pelo governo de Fernando Henrique Cardoso, sem que fosse substituída por um novo órgão ou polícia consistente de desenvolvimento regional para o semi-árido, cujas principais reivindicações dos movimentos sociais locais continuam sendo as mesmas: a universalização do abastecimento de água para beber e cozinhar, o fortalecimento da agricultura familiar, a articulação entre produção, extensão, pesquisa e desenvolvimento científico e tecnológico, o acesso a crédito, a erradicação do analfabetismo e a valorização dos conhecimentos tradicionais, entre outros.
 
 
 
Prioridades da Caatinga
 
 
Entre as principais causas da degradação da Caatinga estão: o desmatamento, especialmente para a produção de lenha, utilizada como finte de energia em residências, olarias e siderúrgicas; a pecuária extensiva, com o consumo e destruição da vegetação pelos animais; e a agricultura de irrigação, que avança ao longo do Rio São Francisco em municípios como Juazeiro e Petrolina, região que se tornou a maior exportadora de frutas do País, especialmente de uvas, modelo de cultivo que compromete os lençóis freáticos e saliniza e contamina o solo por agrotóxicos. As áreas sob maior pressão são as margens do Rio São Francisco, exploradas intensamente, o que vem provocando o assoreamento de algumas áreas; os locais de exploração de minérios, como o pólo gesseiro da Chapada do Araripe (CE); os aqüíferos subterrâneos, utilizados para suprir o consumo humano ou irrigação; e as zonas sujeitas à desertificação.
A desertificação, processo de degradação ambiental que ocorre nas regiões com clima árido, semi-árido e subúmido seco provocado pelo uso inapropriado do solo, da água e da vegetação para irrigação, cultivo intensivo, entre outros usos, já atinge 181 mil km2 do semi-árido brasileiro, ou 1.482 municípios. A região do Seridó (RN), Gilbués (PI), Irauçuba (CE) e Cabrobó (PE), que somam 15 mil km2, estão em situação de extrema gravidade.
Signatário da Convenção para o Combate à Desertificação (CCD), o Brasil tinha como obrigação elaborar o Programa de  Ação Nacional de Combate  à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca (PAN), lançado em agosto de 2004 pela Secretaria de Recursos Hídricos do Ministério do Meio Ambiente, para o qual deverão ser destinados R$ 23,5 bilhões até 2007, principalmente para o combate à pobreza e desigualdade social e fortalecimento da agricultura familiar. Em novembro de 2006, Ano Internacional dos Desertos e da Desertificação, foi inaugurado o Núcleo de Pesquisa de Recuperação de Áreas Degradadas e Combate à Desertificação (Nuperade), em Gilbués (PI), que junto com outros 14 municípios forma a maior área de desertificação no Brasil. No núcleo, que tem como objetivo apoiar estudos sobre o fenômeno da desertificação, testar tecnologias para o controle do processo de degradação de terras, promover a recuperação de áreas já degradadas da região servir como pólo de treinamento para a população local, foram construídas pequenas barragens de terra para contenção do escoamento superficial e implantados experimentos de pesquisa agrossilvopastoril.
O PAN, uma referência internacional, teve 50% de sua verba contigenciada em 2006 e até abril de 2007 apenas 0,3% (R$31,8 mil) de um orçamento de R$ 11,3 milhões tinha sido gasto. Recentemente, o coordenador técnico do programa afirmou que seria necessário investir 1 bilhão/ano, para recuperar a região afetada e suscetível à desertificação.
Com 20 milhões de dólares do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF, sigla em inglês), está previsto o desenvolvimento nos próximos dez anos do Projeto de Manejo Integrado de Ecossistemas e de Bacias Hidrográficas na Caatinga. Deverão ser priorizadas ações de recuperação de matas ciliares – concentradas nas margens do Velho Chico -, ampliação da área manejada sustentavelmente, reflorestamento do entorno de propriedades e pequenos empreendimentos e na criação de três corredores ecológicos – nas regiões de Peruaçu e Jaíba (MG), no sertão de Alagoas e Sergipe e nas Serras da Capivara e das Confusões (PI). O uso mais racional dos recursos naturais também será incentivado com novas linhas de financiamento e assistência técnica.
O GEF deverá destinar recursos ainda para a adoção de sistemas de produção agropecuária sustentáveis, por meio da melhor utilização das plantas forrageiras, em assentamentos da reforma agrária e comunidades de agricultores familiares em 60 municípios do semi-árido, a serem implementados pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, que também está recebendo 50 milhões de dólares do Fundo Internacional para o Desenvolvimento da Agricultura (Fida) para o desenvolvimento de um programa de produção de medicamentos fitoterapêuticos e outro de microcrédito  rural no Bioma.   
Também para promover atividades produtivas sustentáveis, assim como a recuperação de áreas degradadas, Ceará e Bahia são parceiros no Projeto Mata Branca, que tem 22,2 milhões de dólares do Banco Mundial (Bird) para ações que serão desenvolvidas nos próximos cinco anos.
Todo o Brasil convive com a Caatinga. Seja por meio do forró, que foi popularizado por Luiz Gonzaga. Seja por meio dos cordéis e dos repentes, eternizados por milhares de poetas populares, incluindo Patativa do Assaré, e revistados pelo Cordel do Fogo Encantado. Seja por meio da literatura de Graciliano Ramos, de Rachel de Queiroz, de José Lins do Rego, de Guimarães Rosa e de Ariano Suassuna, que em 2007 tem uma obra prima, A Pedra do Reino, adaptação para a televisão em forma de microssérie. Seja por meio da mundialmente aclamada xilogravura de J. Borges, na qual são inseridos os elementos do imaginário sertanejo: lampião, vaqueiros, festa de São João, entre outros. Seja por meio do cinema, desde O cangaceiro, de Lima Barreto, de 1953, passando pela estética da fome de Glauber Rocha em Deus e o Diabo na Terra do Sol e Vidas Secas de Nelson Pereira dos Santos, às produções mais recentes, Abril Despedaçado, de Walter Salles, Baile Perfumado, de Lírio Ferreira e Paulo Caldas, e Baixio das Bestas, de Cláudio Assis, produção que disseca o lado negro da indústria da cana no sertão de Pernambuco em tempos de louvação ao etanol made in brazil.
Muito presente no imaginário coletivo e no cotidiano brasileiro, a diversidade das manifestações culturais do (e sobre) o sertão, uma das maiores do País, exprime como em nenhum outro bioma o quanto o homem está intrincado com o ambiente em que vive. Mas, Infelizmente, onde quer que estejam, na Caatinga, nas periferias dos grandes centros, nas novas fronteiras agrícolas, por conta de uma formação em que faltaram oportunidades e sobrou fome, os sertanejos continuam a ser a parcela da população mais pobre do Brasil e, de acordo com o estudo Mudanças Climáticas e seus Efeitos na Biodiversidade, divulgado em Março de 2007, serão os mais vulneráveis no País aos efeitos do aquecimento global.
 

Fonte: Almanaque Brasil Socioambiental – ISA/2008




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