Hidrelétricas emitem gases do efeito estufa, revela estudo

23/05/2002

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 Murilo Fiuza de Melo

 
O velho discurso oficial de que as usinas hidrelétricas sempre foram um modelo de geração de energia limpa, ou seja, que não contribuíam para o aquecimento global, caiu por terra. 
Estudo de pesquisadores da Coordenação dos Programas de Pós-Graduação em Engenharia (Coppe), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), mostra que barragens de hidrelétricas produzem quantidades consideráveis de metano, gás carbônico e óxido nitroso, gases que provocam o chamado efeito estufa. 
Em alguns casos, elas podem emitir mais gases poluentes do que as próprias termelétricas movidas a carvão mineral ou a gás natural. 
Segundo o geógrafo Marco Aurélio dos Santos, um dos autores do estudo, três fatores são responsáveis pela produção desses chamados gases quentes numa hidrelétrica: a decomposição da vegetação pré-existente, ou seja, das árvores atingidas pela inundação de áreas usadas na construção dos reservatórios; a ação de algas primárias que emitem CO2 nos lagos das usinas; e o acúmulo nas barragens de nutrientes orgânicos trazidos por rios e pela chuva. 
“Ao contrário do que imaginamos, a emissão de gás carbônico e de metano não acaba com a decomposição total da vegetação pré-existente no lago da usina. Há uma renovação constante na produção desses gases, com a chegada de novos materiais orgânicos trazidos pelos rios e pelas chuvas, que são decompostos pelas algas primárias”, explica. 
Rio 02
O trabalho da Coppe foi apresentado na quarta-feira por Santos, durante o penúltimo dia da conferência Rio 02 sobre mudanças climáticas e energias renováveis, evento preparatório da Rio + 10, que se realizará em setembro, na África do Sul. 

 
Produção do gás

Segundo o pesquisador, há duas formas de produção de gases quentes numa usina hidrelétrica: por difusão ou por bolhas. O primeiro caso ocorre na superfície do reservatório. Por ser um meio aeróbico, com maior presença de oxigênio, as bactérias decompõem a matéria orgânica e emitem gás carbônico, que se difunde pela água. 
Já o metano é obtido por decomposição de matéria orgânica no fundo dos lagos das usinas, onde a presença de oxigênio é nula ou muito pequena. “Como não se dilui na água, esse metano chega à superfície por meio de bolhas”, afirma. 
Em reservatórios com grande profundidade, acima de 40 metros, o metano não consegue subir à superfície. “A pressão da água impede que a bolha de metano atinja a superfície”, explica. 
Santos conta que a relação entre a potência energética e a geometria do reservatório é fundamental para a maior ou menor produção de gases quentes. “Lagos profundos em áreas pequenas, e com grande potência energética, emitem pouco gases deste tipo. Este é o caso de Itaipu”, ressalta. 
“Agora, lagos rasos, em áreas extensas, e com pouca densidade de potência, como é o caso da hidrelétrica de Balbina, no Amazonas, são grande poluidores.” 

 
Ranking das poluidoras

Entre 1998 e 1999, o grupo de Santos fez duas medições em nove usinas brasileiras e elaborou um ranking das maiores usinas poluidoras do País. 
Na produção de metano (CH4), a hidrelétrica de Três Marias, em Minas Gerais, ficou em primeiro lugar, com emissão de 196 miligramas de CH4/m2 por dia. No ranking de emissão de dióxido de carbono, Tucuruí, no Tocantins, ganhou o indesejável título de maior usina brasileira produtora do gás, com 8.4574,5 miligramas de CO2/m2 por dia. 
A binacional Itaipu, no Paraná, está entre as hidrelétricas com melhor qualidade na produção de energia limpa. Com área ocupada de 1.350 metros quadrados e produção de 12,6 mil megawatts (MW), a usina emite, por dia, apenas 10,7 miligramas de metano por metro quadrado. A emissão de gás carbônico também é pequena: 170 mg de CO2/m2/por dia. 
Segundo Santos, a medição de óxido nitroso (N2O), outro gás do efeito estufa, ainda não começou a ser feita. “Assinamos um convênio com a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) que nos permitirá, a partir deste ano, realizar medições mensais nas barragens das usinas de Miranda (MG) e Xingó (AL), quando também iremos medir as emissões de óxido nitroso”, explicou. 
No estudo, o pesquisador mostra que, em alguns casos, usinas hidrelétricas produzem mais gases de efeito estufa do que as termelétricas movidas a carvão mineral ou a gás natural. É o caso das usinas de Samuel, em Rondônia, e Três Marias, em Minas. 
“Três Marias, por exemplo, é 0,84 vez menos eficiente do que uma termelétrica a carvão mineral e 0,54 vez menos eficiente do que uma termelétrica a gás natural”, citou. 

 
Termelétricas

Apesar disto, Santos ressalta que uma usina termelétrica é mais prejudicial ao meio ambiente que uma hidrelétrica. “A termelétrica não emite só gases quentes, mas também bióxidos de enxofre e de nitrogênio, além de materiais particulares, altamente prejudiciais à saúde humana. Este tipo de material não existe nas hidrelétricas”, diz. 
O especialista em planejamento energético Rafael Schechtman, também professor da UFRJ, acredita que o estudo da Coppe tem fundamento, mas ressalta que ainda faltam resultados conclusivos sobre as emissões de gases quentes nas hidrelétricas. 
“Ainda não temos a quantidade exata dessas emissões”, lembra. Segundo ele, que nos últimos quatro anos estava cedido à Agência Nacional de Petróleo (ANP), o estudo tem um aspecto positivo: o de jogar luz sobre a possibilidade da construção de novas hidrelétricas que levem em consideração essas emissões de gases de efeito estufa. 




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